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Memes and the Exploitation of Imagination

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Mandel Lecture, 1990 · The Journal of Aesthetics and Art Criticism, 48(2), 127–135.


O que é esse texto

Dennett foi convidado pra uma Mandel Lecture com uma pergunta específica: “arte promove evolução humana?” Ele usa “arte” no sentido mais amplo possível, toda invenção humana, todo artifício, não só pintura e música. A resposta dele é sim, e o caminho pra chegar lá passa por levar a sério a ideia de que ideias evoluem por seleção natural.


1 · Evolução é substrate-neutral

Seleção natural precisa de três ingredientes: variação, replicação, e fitness diferencial. Nada nessa definição exige DNA. Dawkins percebe que um novo replicador surgiu na Terra, os memes, unidades de transmissão cultural que saltam de cérebro em cérebro por imitação.

O ponto central do Dennett: todo mundo fala que “ideias evoluem” mas ninguém leva o mecanismo darwiniano a sério. Virou clichê, e clichês fazem a gente parar de pensar. Ele quer corrigir isso.

“Almost no one writing about the evolution of ideas or cultural evolution treats the underlying Darwinian ideas with the care they deserve.”


2 · Memes precisam de veículos

Memes dependem de materialidade: livros, músicas, falas, código. Sem veículo físico, sem meme. Se todas as cópias forem destruídas, o meme se extingue. Os memes fundacionais (linguagem, escrita) criaram a infosfera, as tecnologias de transmissão análogas ao DNA/RNA na biosfera.

Dennett resume a perspectiva do meme’s-eye view num slogan:

“A scholar is just a library’s way of making another library.”

A ideia é que nós, como indivíduos, não somos os protagonistas, somos veículos. Nosso cérebro é um dung-heap onde larvas de ideias alheias se renovam antes de mandar cópias de si mesmas pro mundo.


3 · Duas perspectivas em tensão

Dennett monta dois frameworks lado a lado:

Visão normal (normativa): ideias vencem por mérito, verdade e beleza. É epistemologia e estética. A explicação padrão é tautológica: “X foi aceita porque X é verdadeira.” O que precisa de explicação especial são os desvios: uma ideia verdadeira rejeitada, ou uma falsa aceita.

Visão do meme (meme’s-eye view): ideias vencem por fitness replicativa, propriedades que fazem elas se copiarem bem. A tautologia aqui é outra: “X se espalhou porque X é um bom replicador.” O que precisa de explicação são os desvios da fitness pura.

Dennett usa uma analogia com a história da física:

Aristóteles achava que um objeto continuar em linha reta precisava de explicação, alguma força agindo. Newton inverteu: movimento retilíneo é o default, só desvios (acelerações) precisam de explicação.

A mesma inversão acontece entre as duas visões de ideias. A visão normal pergunta “por que essa ideia ruim se espalhou?” A visão do meme pergunta “dado que replicação é o default, o que causou o desvio?“


4 · O gap

Não existe conexão necessária entre a fitness replicativa de um meme (bom pra ele mesmo) e o valor dele pra nós (bom pra gente). Costumam correlacionar, damos sorte, mas a lacuna entre os dois é onde moram os casos que importam.

“The important point is that there is no necessary connection between a meme’s replicative power, its ‘fitness’ from its point of view, and its contribution to our fitness.”

Dennett lista memes que são bons dos dois pontos de vista (cooperação, música, escrita, calendários, educação), outros que são controversos mas toleráveis (grade point averages, teaching assistants, propaganda na TV), e outros que são perniciosos e difíceis de erradicar (antissemitismo, sequestro de aviões, vírus de computador, pichação).


5 · Mentes são imóveis escassos

Mentes têm capacidade limitada → competição feroz entre memes por espaço. Essa competição é a principal força seletiva na infosfera.

Alguns memes desenvolveram expressões fenotípicas autoprotetoras que desabilitam os filtros que poderiam rejeitá-los:

Moralmente diversos (“bons” e “maus”), mas estruturalmente idênticos: todos neutralizam seus próprios predadores.

Conceito extra: frequency-dependent fitness: fé prospera especialmente entre memes racionalistas. Quanto mais raro o nicho, mais se destaca. Emprestado direto de genética de populações.


6 · Linkage e mis-filtering

Loci ligados: memes empacotados no mesmo veículo (livro, música, ideologia) replicam juntos. O destino de um depende do outro, independente de mérito individual. Dennett dá o exemplo de uma marcha cerimonial que todo mundo conhece mas que tá tão ligada ao título de uma opereta cômica que a associação atrapalha a replicação.

Mis-filtering: usamos filtros grosseiros por fonte (“ignore tudo de X”) porque precisamos, mentes limitadas não avaliam cada ideia individualmente. Mas isso produz erros sistemáticos:

A competição pra furar esses filtros gera uma corrida armamentista de “propaganda” cada vez mais elaborada contra filtros cada vez mais seletivos.


7 · Feedback positivo e a reestruturação da mente

Memes entram em loops de feedback descontrolado, listas de bestsellers onde vendas geram mais vendas, não por qualidade mas por visibilidade. Igual à cauda do pavão na seleção sexual.

Mas o que importa aqui: memes reestruturam os próprios cérebros que habitam. A mente é ela mesma um produto dos memes. Uma mente letrada e uma mente iletrada são arquiteturas cognitivas fundamentalmente diferentes. A “mente independente” avaliando ideias de um ponto neutro é um mito.


8 · O meme “meme” vale a pena?

Dennett reconhece a armadilha recursiva: o conceito de meme é ele mesmo um meme. O sucesso replicativo dele é independente da verdade dele. A resposta: o meme “meme” só se justifica se explicar os desvios, os casos onde “bom-pra-nós” e “bom-em-se-espalhar” divergem.

Depois ele conta a história meta: Dawkins recuou da memética forte depois de The Selfish Gene, chamando evolução cultural de “apenas analogia” em The Blind Watchmaker. Dennett argumenta que o recuo foi causado por rejeição imunológica, acadêmicos humanistas tinham filtros contra qualquer coisa de “sociobiologia.”

O meme “meme” sobreviveu achando um novo veículo: um filósofo (Dennett) em vez de um sociobiólogo. Mesmo meme, embalagem diferente, mais chance de passar pelos filtros.


A resposta final

Arte contribui pra evolução humana? Sim. Evolução memética opera milhares de vezes mais rápido que evolução genética. Arte, no sentido mais amplo, suplantou todas as outras contribuições pra evolução humana.

Nós não “temos” memes, nós “somos” memes. A cultura não é algo que adicionamos por cima da biologia, é algo que reconfigurou a biologia.